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30 June 2014

Accumulating Brazil

In a normal month of June, Rio de Janeiro hosts at least 16 professional soccer matches. São Paulo will typically see the same number. Salvador typically has around 8 first division matches; ditto Recife, Fortaleza, Porto Alegre, Belo Horizonte and Curitiba. None of these cities will host more than 7 during the World Cup.

Compared to this time last year, Brazilian airlines transported 15 % more passengers per day than they are doing during the World Cup. The airports seem empty because they have fewer passengers. Planes are on time because they have fewer problems getting out of the gate. This is not to say that the Brazilians aren´t doing a good job with airline transport, but that the predicted problems have not emerged because Brazilians were so afraid of the problems that they aren´t traveling the way they normally do.

In a normal month of June, Brazil receives around 600,000 foreign visitors. That is the expected number of tourists that the country will receive for the World Cup. “Normal” tourists have been replaced by World Cup tourists, who are being bilked by hoteliers and tour operators.

In every host city, for every game, there is some kind of holiday. This means that during the World Cup there will be 64 holidays. Bank and government holidays mean fewer people on the streets, freeing up space for the circus acts. Schools schedules have also been altered to keep kids, parents and teachers at home. If kids are not getting to school, parents have to find a way to stay home too.

The holidays, fears of logistical headaches and general party atmosphere have been disastrous for Brazilian productivity – a decline in as much as 30% during the first round of the tournament. These costs are never factored into the general budget for the event. This is in addition to the deficit spending of cities. A little known fact about the World Cup is that all of the host cities were granted an exception to the Law of Fiscal Responsibility (LFR). The LFR prohibits urban administrations from deficit spending. Once released from fiscal responsibility, urban administrations started borrowing heavily and will have to start repaying as soon as the Cup has run dry.

The FIFA-standard stadiums have worked for FIFA, but they are antiseptic containers of global corporatism that negate the history and football culture of the cities in which they sit. We know about the elephantitis and the opportunity costs, we know that the vast majority of people cannot afford to go to football matches, but not many people are talking about the anti-urbanism of these stadiums. In the majority, they are completely isolated buildings, surrounded by a sea of parking and “zones of exclusion”. They may have LEED certification (a form of greenwashing) but they are DUMB in terms of weaving together the urban fabric. 

The party is rolling on and there have not been any major horrors, so the international media parachuters are doing a kind of mea culpa, saying “oh, it´s not as bad as I thought it would be, sorry Brazil, we were unkind.” This is a position that ignores the extent to which the entire country has been retooled to host 64 games of football. The repressive and reactive police mechanism is there to guarantee that this event happens. The upper middle and middle classes from Latin America and elsewhere are enjoying the Brazilian festival while the elites of the world jet into and out of wherever they please, however they please, whenever they please. Yet those excluded from the party are suffering with even more repression than normal, or are hurting from a lack of police coverage because the “normal” coverage has been moved to the World Cup.

The media is underreporting the continuous protests that are unfolding in Brazilian cities. There continue to be strong undercurrents of dissatisfaction with the realization of the World Cup. For the government and FIFA, the amazing football and smooth logistical operations for the tournament have been a blessing. However, in the peripheries, the same repressive and violent police force continues to kill poor black people. While there is more conversation about these kinds of things than there was even two years ago, the World Cup has doubled down on the military model of policing the Brazilian population.

Geographer David Harvey´s concept of accumulation by dispossession is a useful framework to understand all of the processes I have outlined above. The city governments dispossess residents of their streets by declaring holidays, keeping people at home. Public culture and public space are taken from the public realm as stadiums are sanitized, corporatized and privatized. The right to free circulation and protest is limited by the police. Tax burdens for multi-national corporations and FIFA are annulled though special legislation (while the Ghanaian players have to pay taxes on their bonuses received in Brazil and Suarez is deprived of his right to exist as a person while Ricardo Texeira is back in the fold). In short, the entire weight and power of the Brazilian state has collaborated with global financial and political interests to ensure that the World Cup happens in the smoothest manner possible.



28 April 2011

Interview with the Observatorio de Favelas (Português)

Entrevista - 27/04/2011 16:46 
‘Não-legado’ dos megaeventos
Por Marianna Araujo
“O torcedor não costuma pensar que ir ao estádio é um ato político, mas é”. A frase é do geógrafo e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Christopher Gaffney, que também é membro da Associação Nacional dos Torcedores (ANT), entidade dedicada ao enfrentamento da exclusão do povo brasileiro dos estádios de futebol, do desrespeito à cultura torcedora e da retirada de comunidades de trabalhadores em nome da Copa do Mundo e das Olimpíadas.

Para Gaffney, todas as etapas da realização dos megaeventos esportivos de 2016 e 2014 envolvem o estabelecimento de novas regras e novas formas de governar com vistas a gerar um estado de exceção onde o autoritarismo vigora cada vez mais livre de constrangimentos. Segundo o geógrafo, estas são mudanças jurídicas seguidas por mudanças sócio-espaciais que contam com a anuência da grande mídia. Confira. 

Observatório de Favelas: Você fala em "democratizar a Copa do Mundo de 2014". O que essa expressão quer dizer?

Chris Gaffney: Ninguém vota por uma Copa acontecer. Não há referendo, não há plebiscito, não existe opinião pública a respeito. Se o governador do estado, o prefeito, o Ministério do Esporte, o Presidente da República, o Ricardo Teixeira, o seu Sepp Blatter tivessem perguntado para o cidadão, podemos fechar o Maracanã por quatro ou cinco anos, descaracterizá-lo, e gastar 1,5 bilhão para receber cinco jogos de futebol em 2014, e privatizar os lucros, o que teríamos dito? 

Depois de falar em 2007 que o governo federal não bancará a Copa, agora estamos dispostos gastar de sete bilhões de dinheiro público em doze estádios, em doze cidades, sem perguntar a ninguém, sem passar pelas instituições democráticas. Que órgão do governo decidiu colocar um estádio em Natal e não em Goiás, em Manaus e não em Belém? Ninguém toma responsabilidade. Quem da CBF, do Ministério do Esporte, da Prefeitura perguntou ao usuário, ao torcedor – que tipo de estádio vocês querem, demandam, precisam? Por que não podemos seguir um modelo que inclui mais a sociedade civil nesse processo? Há uma falta de informação, uma falta de transparência, uma falta de coordenação e planejamento, uma falta de inclusão social, grandes falhas de gestão e um desrespeito total pelo senso comum. 

O caminho que estamos seguindo é longe de ser o único. Dentro de todas as possibilidades, estamos no caminho menos democrático, o menos responsável, o mais autocrático com menos mecanismos de controle. O modelo atual é que menos atende as demandas da sociedade e mais atende as demandas de uma empresa Suíça. Pior, “eles” estão destruindo lugares comuns, palcos públicos e espaços sagrados de memória coletiva para reformulá-los em shoppings. 

Ao lado do Lixômetro e do Legadômetro precisamos um Democráticômetro.  Nota Negativa. 
 
OF: Qual o papel da imprensa nesse processo que você descreveu?

CG: A imprensa adora esporte porque ele é barato e rentável. Em comparação ao custo de produção de uma telenovela, o futebol é baratíssimo. O estado paga pela construção e manutenção do palco, os times geram o elenco, e todo mundo conhece a história e a segue semanalmente. Não servem aos interesses da imprensa, atrair atenção para os problemas no esporte. 

Porém, a narrativa global do esporte é impactante, informa nossas próprias identidades, nossas histórias pessoais. Quem viu uma final da Copa ao vivo? Quase ninguém, mas todo mundo assiste. É dizer, nossa experiência da Copa é (e será) formada pela mídia, então o papel dela é fundamental nesse processo. 

Esporte é rentável porque ele é despolitizado. O torcedor não costuma pensar que ir ao estádio é um ato político, mas é. Construir, reformar, demolir, manejar e transformar estádios também são atos políticos. Quando o projeto do Maracanã foi apresentado, não houve questionamento do projeto, só bênçãos. Mas é muito óbvio que, o Novo Maracanã descaracterizará o estádio que conhecíamos. Como ninguém reclamou? O Velho Maracanã foi construído para ser palco do que representaria, arquitetonicamente, o projeto de democracia brasileira de outra época. Esse Novo Maracanã está sendo construído para atender discursos e valores diferentes. Será que concordamos com esses valores?  Os valores de democracia e inclusão social, refletidos na arquitetura do estádio, não são mais os valores que norteiam a sociedade brasileira? Pelo o que eu saiba, só Juca Kfouri e José Cruz levantaram críticas desde o início. 

Lamentavelmente, a trajetória é sempre essa. A mídia, com os times, os ministérios, os entes privados como a CBF e os “boosters” (negócios, setor privado, coalizão de crescimento, os desenvolvimentistas) combinam com políticos para vender a idéia de que “precisamos” de um estádio novo, um megaevento, uma reforma urbana, um espetáculo global. Vamos custar a saber, mas, mais vai trazer benefícios no curto, meio e longo prazo. As vozes harmonizadas e ufanas transmitem que tudo vai dar certo e quem levanta a mão contra é tratado como antipatriótico, anti-esporte, anti-progresso, anti-tudo. As vozes dissonantes não recebem espaço na imprensa, a princípio. O megaevento representa uma “oportunidade imperdível” tanto pelos políticos e empreiteiros quanto pela mídia e, nos dizem, pela sociedade. A imprensa atua como o alto-falante, o carro de som desses discursos. Mas a imprensa não inventa tudo sozinha. Não pode pensar na imprensa como um ente independente do poder público ou os grandes interesses de capital que dirigem todo esse processo.

Então vemos desde o início, uma repetição continua dos discursos dominantes. Depois que as promessas se dissolvem e os projetos ficam superfaturados, quando as despesas e desapropriações feitas em nome do megaevento são cada vez mais chocantes, é quando a imprensa é obrigada a ligar o olhar crítico, publicar algumas denúncias. O que estamos vendo hoje é uma onda crescente de artigos que criticam as preparações para Copa e Olimpíadas. O problema é que agora é tarde demais. Precisamos de uma imprensa crítica do começo ao fim e não só quando as preparações começam a apodrecer.    
 
“O torcedor não costuma pensar que ir ao estádio é um ato político, mas é”
 
OF:  A preparação do Rio para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 envolve a implantação de uma série de grandes projetos para a cidade. A construção da Transcarioca - via que ligará a Barra da Tijuca ao Aeroporto Internacional Tom Jobim - já desapropriou cerca de 700 residências de 3 mil previstas. Recentemente, houve denúncias dando conta de que as famílias desalojadas estão recebendo indenizações muito abaixo do valor de seus imóveis. Essas denúncias saíram nos grandes veículos de comunicação. O senhor afirma, de outro lado, que, durante a execução dos grandes projetos urbanísticos dos mega-eventos, se estabelece uma espécie de alinhamento entre o discurso da imprensa e a vontade estatal. O fato das denúncias dos moradores saírem nos grandes veículos seria uma espécie de contradição? Como avalia isso?

CG: A grande mídia não tem mais como ignorar essas desapropriações. Não pode aparecer tão comprometido com um projeto que não critica nada. Mas, não é simplesmente uma questão de publicar denuncias dos moradores. A maneira em que eles apresentam essas denúncias é importante. Por exemplo, outro dia houve uma notinha na segunda página do Globo, chamando o MST de terroristas por que não “respeitam a autoridade do estado”. Tudo bem que eles apresentam notícias sobre o MST, mas são tantos exemplos de um viés que favorece o estado e o status quo, que não dá para acreditar no que está escrito.

Tomo por exemplo o Maracanã. Saiu no Globo a semana passada um artigo intitulado - “O Maracanã não é mais nosso”. A meu ver, quando O Globo começa criticar o projeto da Copa a situação realmente é ruim. O Maracanã não existe mais. O Engenhão não é legal para ver futebol, tudo mal feito. A cidade perdeu seu grande palco por cinco anos e, somando as reformas dos últimos dez anos, vai custar quase dois bilhões. Eliminar o Maracanã sempre foi o Plano A. Por que reclamar agora? É chorar sobre leite derramado.  Eu levantei essas perguntas pela primeira vez em 2008, porque era bastante previsível o que ia acontecer com o Maracanã. De fato, tinha acontecido com as reformas do PAN, mas ninguém prestou atenção porque o estádio continuava funcionando direitinho. 

Então a contradição não é que nossa mídia hegemônica lance reportagens sobre desapropriações, ou que de vez em quando articula os interesses de sociedade civil. A contradição está no fato que O Globo está dando todo apoio ao projeto (de BRT, por exemplo), ao mesmo tempo em que está mostrando o lado feio aos poucos. A notícia de que um condomínio de classe média vai ser desapropriado pelas obras da Trans-Olímpica, recebeu uma página inteira de cobertura. A remoção forçada de 119 favelas quase nada. É uma questão de prioridades, influência, poder simbólico e repercussão político. 
 
OF: No caso específico dos mega-eventos, por que a imprensa costuma reforçar os discursos desenvolvimentistas que justificam ações ilegais do Estado contra milhares de famílias? 

CG: Não vejo muita diferença entre a imprensa, o governo e seus banqueiros nesse sentido. A imprensa publica o que diz os governadores e não se preocupa muito com as críticas. Acho que há uma falta de entendimento, entre os editores das grandes órgãos da imprensa, sobre como realmente funciona um megaevento. Ou existe uma ignorância intencional, ou uma miopia que acontece na frente das possibilidades “inéditas, imperdíveis” do megaevento. A gente só quer ouvir coisas boas, que tudo vai melhorar, a economia vai crescer para sempre. Ninguém quer admitir os custos reais, quanto o estádio vai custar, quantas pessoas serão aterrorizadas, ameaçadas, removidas, desalojadas. O ufanismo generalizado deixa todo mundo só querendo saber que o estádio vai estar pronto, o aeroporto melhorado, um novo sistema de transporte instalado.  Uma caixa preta também é uma caixa de Pandora. Uma vez que, o megaevento é questionado em si, tem que começar pensar, agir, cobrar. 

Também temos que pensar nesse projeto da Copa e Olimpíada como uma oportunidade de lucro espetacular. Esse também vai enriquecer a imprensa. Para mim, tudo que está acontecendo no Rio de Janeiro tem a ver com especulação imobiliária, com o destrancamento de valor, com a oportunidade de ganhar muito dinheiro no prazo mais curto possível. Para isso acontecer, precisamos reestruturar os espaços da cidade, reorganizar as relações sociais, aplicar uma série de “choques”, como diz Naomi Klein. Os megaeventos funcionam como uma invasão. Entre o delírio e o temor, é preciso estabelecer novas regras, inventar novas formas de governar, gerar um estado de exceção para instalar um regime autoritário. Já aconteceram essas mudanças jurídicas, agora vêm as mudanças sócio-espaciais. 
 
OF: Os Jogos Pan-americanos de 2007 não deixaram a infra-estrutura de transporte prometida, não melhoraram as habitações populares e não repararam os danos ambientais das grandes obras. O Rio dá sinais de reestruturação no transporte. Mas, será que em outras áreas é possível que a história do (não) legado social do PAN se repita?

CG: Essa reestruturação de transporte também tem que ser avaliada. Para mim, não há evidencia que os sistemas de BRT vão atender ás demandas atuais do transporte na região Metropolitana. Para mim, só vamos ter legado negativo no transporte urbano. Quem planejou essas linhas? Por que temos três, das quatro linhas, indo a Barra da Tijuca? Por que não vamos ter uma ligação entre Galeão e Santos Dumont? Como estamos organizando o serviço de barca entre Rio e Niterói? Não vamos ligar a Zona Oeste com o Centro, a Baixada com alguma zona? É claro que, o sistema de transporte planejado só vai atender as pessoas que vão para Barra de Tijuca. Por quê? Qual será o efeito disso daqui a 10, 20, 50 anos? Os custos de oportunidade desses sistemas não têm tamanho. Qualquer intervenção urbana vai ter um efeito (ou legado) social. Uma linha de BRT é uma faixa impermeável de concreto e alta velocidade que corta em dois por onde passe. Alguém reparou na fragmentação que vai acontecer em Jacarepaguá com essas linhas?  

É preciso entender o que queremos dizer com “legado social”. Para mim, significa melhoramentos em educação, saúde, meio-ambiente, moradia, trabalho, transporte e qualidade da vida para a maioria da população (dentro do parâmetro do capitalismo selvagem reinante). Talvez, o benefício de um incremento do orgulho de ser “global”, de ter experiências “legais” com os eventos são importantes, mas para mim não caem dentro dos parâmetros de legado social. 

Com esse critério, o legado do PAN não era só negativa, mas um fracasso total. Esse também tem que ser entendido com legado. Pode chamar de “illegado”. Até a Prefeitura aceita que não houve legado urbano ou social nenhum do PAN além de possibilitar a conquista da Copa e Olimpíada. Seguindo essa lógica, a má gestão do PAN abriu o caminho para sediar eventos maiores com mais dinheiro. Se fosse uma empresa ou empregada teriam sido demitido por incompetência, mas o que fizemos foi dar as mesmas pessoas mais umas chances com mais dinheiro e menos controle. 
 
OF: O esporte certamente é uma atividade que tem papel central no desenvolvimento de diferentes capacidades. No entanto, é possível que as características positivas do discurso do desporto sejam utilizadas, no caso dos mega-eventos, como cortina de fumaça para outros interesses?
 
CG: Um megaevento é um grande cavalo-de-tróia, escondendo os mais diversos instrumentos de neoliberalismo. Como os discursos esportivos são despolitizados e o esporte tem fortes ligações com nossas emoções, é difícil ter uma conversa sincera ao seu respeito. Os que acreditam no “projeto Olímpico” parecem autômatos, sempre repetindo as mesmas coisas como se fossem mantras Olímpicos. “Barcelona deu certo, se transformou, melhorou muita coisa, vamos seguir esse modelo, vai dar certo de novo.” Repete. Nada a ver.
Em 1992, Barcelona tinha um milhão de habitantes, o Rio tem 13 milhões. Espanha recebe 55 milhões de visitas turísticas por ano, o Brasil cinco, seis. Barcelona tinha um plano-diretor antes das Olimpíadas chegarem, o Rio não. O plano-diretor da cidade é a Olimpíada. Não pode dar certo.  (http://www.ub.edu/geocrit/b3w-895/b3w-895-17.htm)

Então a cortina de fumaça esconde esse cavalo-de-tróia que também é uma caixa preta. Pode ser que a imprensa tenha as chaves, mas está tão comprometida com o sonho olímpico que virou um cego papagaio. Os discursos “positivos” do esporte são barreiras difíceis de derrubar, desconstruir. Politizar esporte deve ser prioritário, mas estamos longe, longe disso. Pior, cada vez que falamos nas “demandas” dos megaeventos (sejam de tempo, infraestrutura, ou isenção fiscal) fortalecemos os discursos dominantes. Todas as perguntas continuam circulando em volta do megaevento, atraindo tudo para a caixa-preta como se fosse um buraco negro. Precisamos entender os eventos como projetos políticos, que funcionam para instalar novas formas de governar, uma nova biopolítica, onde quem tem dinheiro pode comprar seus direitos de cidadão. Eis o modelo atual de desenvolvimento. 


OF:  Como você avalia a cobertura esportiva dos veículos de imprensa brasileiros? Do que sente falta?

CG: O papel de ESPN me parece bastante interessante. Eles são diferentes ao ESPN nos EUA, mais críticos, mais sábios, mais mente aberta. Em geral, eu sinto falto de um nível de cinismo, que leva a gente a questionar o status quo. Acho que ficamos presos naquele debate inútil sobre futebol-arte ou futebol de resultados, que gera uma falsa nostalgia sobre como o futebol era. 

Talvez sempre fosse ruim, mais não tanto como agora e por isso ficamos num passado imaginário que nos distrai de nosso presente urgente. Não ouço a voz do torcedor em nenhum lugar na imprensa esportiva, além daqueles fragmentos na televisão, mandando questões simples para um comentarista qualquer. Sinto muita falta de uma imprensa esportiva independente, que nos desafia pensar em uma maneira mais crítica, redonda, e inteligente. 

OF:  Qual a sua formação? Em que universidade atua e que pesquisa vem desenvolvendo?

CG: Me formei em história e filosofia e sou doutor em geografia. Estou atuando na Escola de Arquitetura e Urbanismo, da Universidade Federal Fluminense com o grupo Grandes Projetos Urbanos. Tenho várias pesquisas em andamento. Estou pesquisando os processos de planejamento e instalação das linhas BRT. Essas linhas vão ter um efeito profundo no tecido urbano e social do Rio para sempre. 

Também estou investigando a história da transformação do Maracanã, começando com a primeira grande reforma em 1999. Também faço parte de uma pesquisa nacional da IPPUR/UFRJ sobre os 12 projetos da Copa, nas 12 cidades-sedes. Esses projetos representam uma continuação de minhas investigações sobre o papel social dos estádios de futebol na história do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, que saiu no livro Temples of the Earthbound Gods (University of Texas Press, 2008). Estou no processo de traduzir esse livro para o Português com a Editora 7 Letras. 

Também sou bastante envolvido com a Associação Nacional dos Torcedores, ocupando a carga de vice-presidente nacional. Eu estou publicando denuncias e interpretando notícias no meu site www.geostadia.com em inglês, para atrair atenção aos processos, desafios, e realidades dos megaeventos no Rio de Janeiro e Brasil. 

11 February 2011

World Cup FAIL

What is it about Rio de Janeiro that makes everything just a little more complicated than it has to be?  Is it possible that Jared Diamond’s environmental determinism has some merit? Why aren’t the football fans in this city totally revolted by what is going on?

O Maraca já era. Foto Raul Melo Neto.
The BIG NEWS coming out of the TCU (Federal Accounting Authority) is that the Novo Maracanã project is being carried off in R$1.5 billion illegal and opaque ways. There’s no surprise but to hear the same thing that I have been saying come from the very government that is financing the project is both refreshing and sad, as there is basically nothing that can be done about it. Why? Because the TCU has no power to initiate legal proceedings. Those must be taken up by the Ministério Público (Public Prosecutor). There, a very ambitious, brave, or stupid lawyer would have to get permission from her higher ups to initiate legal proceedings against the government officials in charge of the project. There is simply never going to be enough political cover for a lawsuit to be brought to bear, so while the TCU can make recommendations and use strong language, it’s very unlikely that the jeitinho is going to change. 

Let’s look at some of the details of the TCU’s report culled from a dozen different news sources (I have not yet been able to find Valmir Campelo’s relatório on the Byzantine TCU webpage, any help appreciated).
The report was firm in declaring that the Maracanã  contract process was completely opaque and that the budget “borders on complete fiction”. The TCU highlighted the fact that while the Minerão project in Belo Horizonte presented 1309 architectural drawings and the Verdão project in Cuiabá presented 702, the Maracanã presented 37. Thirty-seven drawings for a R$709 million project!?#!@$%!?  Fala sério. In the budget for the Maracanã, “multiple items are included multiple times, there are innumerable opportunities for inflationary costs to be written in, and items included in the engineering budget have nothing to do with engineering.” Pah! Ha ha ha! Tão de brincadeira?

This is what one gets when you take the same people that managed a 1000% cost overrun for the Pan American Games, give them more power, more money, less public accountability, and fewer transparency mechanisms. The TCU, which condemned Ricardo Leyser (head of the Pan construction projects and now head of the Empresa Brasil 2016, responsible for using R$30 billion [the initial Olympic budget, sure to double] to transform Rio de Janeiro forever), noted in their report that there is a risk of “added contractual costs, over-charging, un-necessary projects, and emergency contracting procedures that will follow in the pattern of the Pan 2007.” The report cites the case of the Nova Fonte Nova in Salvador, whose price went from R$ 400 million in 2009, to R$ 591 million in 2010, to an estimated R$ 1.6 billion in 2011. Tão de sacanagem, sim.

The TCU also confirms my suspicions about Orlando Silva’s renewed position within the Ministry of Sport saying,  “there are indications of a possible lack of accompaniment on the part of the Minister, a characteristic that will make controlling the projects more difficult.” Initially, Silva was nominated as a potential head for the APO (Public Olympic Authority, which will employ Leyser’s BRASIL 2016) but after some negotiation he remained in his post as MoS because the powers behind the powers know they can count on him to turn a blind eye to the proceedings.  

What the TCU report does, in addition to bringing to light what everyone has known all along, is warn the cities that they may actually be held accountable for what they are or are not doing. The very same TCU minister that produced this most recent report warned that Fortaleza is in serious danger of having their World Cup Host status revoked. The main issue cited is the forced removal of communities that are “in the way” of transportation lines designed to bring tourists from the beach to the stadium. As I have mentioned in other posts, the Fortaleza project is more about massive real-estate projects than anything else, as a massive residential complex is in the works right next to the suburban stadium. FIFA only ever asked for 8-10 cities, so there is a real possibility that one or two cities are going to fall off the World Cup map.

So what is going to happen now? The TCU has asked that BNDES, the Brazilian National Development Bank, suspend 80% of the financing for the Maracanã until SEMOP (Municipal Works Secretary), SUDERJ (State Sports Secretary), and Rio 2014 (the consortium of Rio’s big boy construction firms) can find a way to make their jogo-do-bicho a little more palatable to government authorities. BNDES has opened R$ 400 million in financing for all of the World Cup cities, a massive stimulus for the funneling of public money to private interests.

In the meantime, nearly all of the games of the Campeonato Carioca are being played at the Engenhão. Indeed, all of Rio’s teams are going to be playing their big matches in Engenho de Dentro until 2016. Once the Novo Maracanã  is finished, sometime towards the end of 2013, it will be used sporadically for clássicos in order to test new security systems and general functioning in the months leading up to the World Cup. After the World Cup, the stadium will undoubtedly suffer more investments in preparation for the 2015 Copa América and 2016 Olympics. Then, when Rio’s real-estate bubble bursts and the only people who can afford tickets to the Novo Maracanã are jumping off of their coberturas, who will go to the games? Not that the teams really want fans to go anyway as only 8% of their income results from ticket sales. (Last year, Flamengo offered tickets for R$10, filling the Fechadão and recording their highest receipts of the year, yet the club said that this was not a viable economic model because, “it’s complicated”) .

In other fun news that I culled from the TCU webpage, two of the major infrastructure works being planned for the World Cup have been paralyzed for lack of transparency in theitr contracting process. Rio Metrô has had their Linha 3 project stopped and São Paulo’s Garulhos (international) Airport has been halted. Here are the links: https://contas.tcu.gov.br/pls/apex/f?p=2207:4:4926169036331711::NO::P4_COD_OBRA:611

29 March 2010

Caçando Elefantes Brancos na media

Copa deixará "elefantes brancos", diz pesquisador
Isabela Vieira, AGÊNCIA BRASIL

Rio de Janeiro - O Brasil enfrentará desafios estruturais para a realização da Copa do Mundo de 2014. De acordo com o geógrafo da Universidade Federal Fluminense (UFF), Christopher Gaffney, o país caminha para a construção de elefantes brancos e demonstra falta de planejamento e de transparência nos gastos públicos. As informações constam de estudo apresentado hoje (23), durante o Fórum Social Urbano (FSU).

Segundo a pesquisa, não há controle nos gastos com a construção ou a recuperação de estádios das 12 cidades que receberão as competições. Ainda de acordo com o pesquisador, como o governo não conseguiu apoio da iniciativa privada para construção das arenas, que devem ter capacidade para 50 mil pessoas, fará aportes por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que destina R$ 4,8 bilhões para Copa do Mundo, sendo R$ 400 mil para cada município.

Gaffney disse também que a aplicação de dinheiro não conta com mecanismos de acompanhamento social e os orçamentos para reforma de três arenas foram extrapolados em menos de nove meses. Como exemplo, a pesquisa cita o Maracanã, no Rio, cujo orçamento inicial passou de R$ 500 milhões para R$ 600 milhões de 2009 para 2010, o Estádio do Morumbi, em São Paulo, que passou de R$ 136 milhões para R$ 240 milhões e do Estádio da Fonte Nova, em Salvador, de R$ 400 milhões para R$ 591 milhões.

O estudo questiona ainda o retorno dos investimentos governamentais na Copa, que também incluem infraestrutura urbana, transporte e benefícios fiscais. Gaffney estima que apenas para o retorno dos gastos com os estádios a ocupação das arenas deverá ser quadruplicada em relação a atual, embora os torcedores devam pagar mais pelos ingressos. Os preços passarão de R$ 20 e R$ 30 para R$ 45 e R$ 60.

"Vai ter que arranjar torcedor disposto a pagar o dobro. Isso porque têm cidades do Norte e Nordeste que não tem tradição futebolística para lotar os estádios, como foi dito aqui e isso vai ser difícil depois da Copa. Ou seja, esses estádios devem acabar se tornando uma coisa que a gente conhece bem: os elefantes brancos", afirmou o geógrafo, em referência a obras sem função social, com elevado custo de manutenção.

A pesquisa da UFF também chama atenção para o deslocamento dos torcedores no país durante a competição e alerta para o desafio da implementação de melhorias no transporte. “Não há uma estrutura ferroviária ligando o país e o próprio presidente da CBF reconheceu que o problema para a Copa são os aeroportos, afirmou. Segundo o geógrafo, os R$ 6 bilhões anunciados pelo governo federal para os aeroportos são insuficientes.
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